| Página 1 | A ajuda adequada (Gn 2,18) |
Umas das questões que mais afligem o coração dos jovens que conheceram o
amor de Deus e que já foram tocados pelo Espírito Santo, aceitando a salvação de
Jesus em suas vidas, é saber qual é o chamado de Deus para suas vidas. Em outra
palavras, qual é a sua vocação.
Há alguns anos
atrás eu participava de um programa pela rádio junto com o então Bispo de Franca
(SP), Dom Diógenes, em que o assunto acabou caindo na questão vocacional. E
nesta oportunidade suas palavras nunca mais saíram de minha cabeça. "O homem só
tem duas vocações: ou serve a Deus celibatariamente como sacerdote, religioso ou
leigo consagrado; ou vai servir a Deus pelo matrimônio, constituindo para isto a
família cristã."
Diante disso
temos que pensar nossa vida colocando-a em uma destas duas direções, e é nesta
busca que se encaixa o que popularmente conhecemos como
namoro.
A imensa
inquietação no coração do jovem está em ver respondida a sua questão quase que
existencial: O que devo fazer de minha vida Senhor. Devo me consagrar e ser um
padre, uma religiosa, ou devo um dia me casar e constituir uma família, ter
filhos e educá-los para o amor, isto é, para Deus?
Sabemos que o coração parece dividir-se entre os quereres que existem
dentro de nós. Por um lado servir a Deus sem reserva, sem partilha; por outro
queremos nos relacionar com alguém de outro sexo de forma íntima com vínculos de
profunda amizade, e desta forma, servir a Deus. Qual é a vontade de Deus para a
minha vida?
Uma vez atendi
para um aconselhamento espiritual um seminarista agostiniano que estava
preocupado com sua vocação. Após um breve momento de oração, aconselhei a que
seguisse o seu coração, entregando sem partilha seu coração ao Senhor Jesus.
Anos mais tarde, quando pregava um encontro para a juventude naquela diocese,
encontrei este jovem, agora já não mais um seminarista, mas um sacerdote
atendendo outros jovens em confissão.
A
alegria do encontro levou-o a confidenciar-me que mesmo depois daquela oração,
quando chegou o momento de decidir-se pelos votos perpétuos de sua congregação,
fez um longo retiro de silêncio onde buscava a confirmação de sua vocação. E o
que o surpreendia era o fato de os jovens decidirem-se pelo caminho do
matrimônio sem um tempo de silêncio e oração, como se esta vocação não fosse
para toda a vida.
Da mesma maneira
um dos jovens que participavam comigo de um grupo de crescimento em minha casa,
antes de se decidir sobre o casamento com sua namorada, já de alguns anos,
procurou um retiro dentro de um mosteiro trapista onde colocou em cheque sua
vocação e nos disse que só voltaria de lá se fosse para a vida matrimonial,
senão deveríamos avisar sua namorada de sua decisão. Creio que o método usado
não seja o mais adequado, porém ressalta a necessidade de um discernimento sério
para um decisão tão importante como é o casamento. Neste caso ele voltou e hoje
está casado e servindo a Deus em sua vocação.
Nesta luta por discernimento quero colocar a necessidade de descansarmos
em Deus, como no Gn 2,21 "O Senhor Deus fez cair um
sono profundo no homem, que adormeceu, e tomou uma de sua
costelas..." Assim como Adão que precisou de um
sono profundo para que Deus pudesse Ihe tirar algo. Uma costela que não está nem
acima dele, nem abaixo, porém ao lado, mostrando toda a unidade e valor da
mulher no plano da vocação humana. Diferente do masculino, o feminino vem a ser
igual ao masculino em dignidade.
Quando
descansamos em Deus usando de nosso tempo, não na busca aflita do companheiro ou
da companheira, mas procurando desenvolver um tempo especial de serviço a Deus,
de crescimento nas amizades, e de aprofundamento da descoberta comunitária que
há em nós, Deus vai despertando o amor mútuo e mostrando aos nossos olhos as
riquezas que existem nos corações, e que nos levam a começarmos a aprofundar uma
relação especial de amor.
No Gn 2,18-25,
vemos uma razão fundamental para descansarmos em Deus: a fé. O texto nos diz que
"Deus viu que o homem estava
só..." E precisamos crer que Deus nos vê, olha a
nossa condição, nossa preocupação e nossa solidão. Ele se importa conosco, pois
Jesus Cristo nos revelou no Evangelho que conhece até quantos cabelos temos em
nossa cabeça, isto é, se importa com o mais insignificante de nossos problemas.
Portanto se importa com nosso futuro, e o nosso futuro depende necessariamente
de nossa opção vocacional.
Gosto de
completar que esta passagem acrescenta "... não é
bom que o homem esteja só..." A vocação
matrimonial é a primeira das vocações. A primeira que Deus escolheu para a
felicidade de seus filhos, e que Deus viu nela um instrumento de serviço ao
reino e ao seu plano de amor, na experiência única da comunhão do amor e da
procriação como fonte de vida plena para a humanidade.
A exclamação de Adão diante da sua descoberta ao
voltar do profundo sono que Deus lhe tinha dado, nos deixa feliz de constatarmos
como é o plano de Deus para os homens e mulheres: a descoberta de que não é bom
que estejamos sós, como disse o primeiro dos viventes:
"E o homem exclamou: Agora sim ossos dos meus ossos
e carne de minha carne" Gn 2,23.
São os ossos que dão forma a cada um de nós. Sem os
ossos seríamos como um monte de carne e músculos amontoados, mas como temos o
esqueleto, vamos dando os contornos de cada um de nossos membros. Por isso as
palavras de Adão tornam-se significativas para entendermos a vocação primeira do
homem: o matrimônio - constituir família - esta foi a primeira das vocações e
não uma vocação de segunda categoria para os fracos que não conseguem viver
celibatariamente. Somos chamados a dar forma uns aos outros pelo matrimônio e
caminharmos para uma vivência sadia da vocação familiar.
O medo de que Deus tenha para nós uma vocação que não
queremos, partindo de um princípio de que Deus sempre quer o que nós não
queremos, nos impede de dar liberdade ao Espírito para ir revelando ao nosso
coração o seu chamado.
O documento
"Perfect Caritas", voltado à vida consagrada, nos
ensina que nenhuma vocação acontece sem a confirmação em nossa vida. Deus não
nos força, Ele nos convida e a resposta é livre e convicta de nossa
parte.
Claro que sabemos
que Jesus fala daqueles que são chamados a servir o reino dos céus como eunucos,
como diz "Perfect Caritas": "A consagração é um ato divino. Deus chama à parte
alguém por Ele amado para Ihe ser consagrado de modo especial. Ao mesmo tempo
Ele dá a graça de responder a este chamado."
Ao
lado da bela vocação sacerdotal, religiosa, consagrada, está também a vocação da
complementaridade do matrimônio: uma consagração a dois, que une a masculinidade
e a feminilidade formando um todo. Um eu com missão de vida, de Igreja e de
amor.
Gostaria de dar
um testemunho: Quando conheci o amor de Deus, procurei encontrar alguém que
partilhasse do mesmo sentimento comigo, e que eu pudesse namorar e vir a formar
uma família. Esta procura me angustiava cada vez mais, e eu já não sabia orar
sobre outra coisa que não fosse pela minha área sentimental. Eu queria estar na
vontade de Deus, mas também tinha meus gostos. Tinha também meus medos de que
Deus não me quisesse casado, além da preocupação com a sexualidade, meus
impulsos, etc.
Quanto mais eu
procurava, mais difícil as coisas ficavam, de forma que eu já não sabia direito
como procurar. Neste ponto optei pelo absurdo: me afastar da procura, das
feridas, do medo de ser rejeitado, que era um de meus maiores traumas, e também
de não namorar só para não ficar sozinho. Foram quase dois anos de descanso no
Senhor, que me trouxeram um crescimento incalculável. Minha vida de oração
melhorou, meu coração se tranqüilizou. Comecei a me preocupar com a
transformação real da minha vida, e como servir melhor o meu Deus. Quando já não
esperava com tanta aflição acabei por começar um namoro que depois de dois anos
de amadurecimento gerou a minha família.
Também minha esposa se lembra de uma reunião de oração no grupo de
partilha onde Deus lhe falava que não se preocupasse, pois já estava preparando
um companheiro para ela. E isto lhe trouxe muita paz. Foi alguns anos depois que
viemos a namorar, fruto de um confiar em Deus.
É
preciso, porém, compreender que Deus não quer dominar a vontade das pessoas e
obrigá-las a viverem de acordo com sua vontade, pois ele deu-nos a liberdade, e
muitas vezes vamos usá-la de forma errada, ou vamos esperar que Deus obrigue
alguém a ficar conosco porque tivemos uma suposta palavra profética sobre o
assunto.
O namoro é o
tempo de aprofundarmos o relacionamento, para descobrirmos quem é a pessoa com
quem vamos construir um novo eu. É a preparação sadia para as núpcias, e só tem
sentido diante desta perspectiva do casamento. Para isto ele existe, e não para
ser uma aventura ou uma brincadeira.
Em resumo, o
namoro é a atividade que nos permite conhecer mais profundamente o outro em
busca de encontrarmos a ajuda adequada, o(a) companheiro(a) que, respondendo à
mesma vocação matrimonial, irá construir conosco a nova vida que nasce do
sacramento do matrimônio e termina na eternidade quando todas as coisas serão
coroadas no amor.